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Vera Costa (Ciências Biomédicas)
28 Sep

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Vera Costa (Ciências Biomédicas)

  •  September 28, 2015   — September 28, 2015
  • 12:00 am — 12:00 am

O que fazem os investigadores? Qual o seu papel na sociedade? Quais as descobertas mais importantes realizadas até ao momento e o que falta ainda descobrir? Estas são algumas das questões que tentaremos responder através de entrevistas a diferentes membros da AGRAFr, que fazem investigação em diversas áreas do saber, desde as ciências da vida às ciências sociais e humanas.

XMS9-K114-WVK1-HYCP

Nome: Vera Lúcia Marques Costa
Localidade (Portugal): Arganil
Localidade (França): Paris – Sartrouville
Formação Académica: Doutoramento em   Ciências Biomédicas
Ocupação Atual: Pós-doutoramento no Instituto Curie – Fim de contrato
Relação com a AGRAFr: Membro desde 2014

 

1- Podes explicar, para um público não especializado, em que consiste o teu projeto de investigação?

A minha área de investigação inicial foi a epigenética, ou seja, o estudo dos fenómenos que não são explicados pela lógica da genética e que poderão ser utilizados como marcadores de diagnóstico ou prognóstico de diferentes tipos de cancro.

No meu projeto de investigação durante o pós-doutoramento o objetivo consistia na identificação de regiões nos diferentes cromossomas que se encontrassem alterados de alguma forma no cancro da mama. Dentro dessas regiões cromossómicas poderíamos então definir os genes eventualmente importantes para a origem tumoral associados aos diferentes sub-tipos e aprofundar o estudo funcional dos genes identificados. Uma vez detetada a alteração epigenética de silenciamento ou ativação dos referidos genes, poderíamos então orientar a pesquisa para um possível tratamento oncológico, já que as alterações epigenéticas contrariamente às alterações genéticas podem ser revertidas com a utilização de fármacos comerciais. O cancro tem origem numa série de eventos sequenciais, mas a identificação de determinados genes cruciais para o desenvolvimento cancerígeno seria uma óptima ferramenta para o diagnóstico dos diferentes tipos de cancro da mama, especialmente os mais agressivos.

2- Como é o teu dia a dia e o que te motiva no teu trabalho?

Como qualquer biólogo e investigador, o meu dia a dia é bastante preenchido e sem horários a cumprir. Com as minhas obrigações de mãe não consigo começar o dia tão cedo como gostaria, mas a primeira atividade do dia consiste em planear as experiências a efetuar no próprio dia, geralmente ainda durante o trajeto até ao local de trabalho. Normalmente, a maior parte do meu tempo é dedicado às experiências no laboratório e à sua análise, mas dedico algum tempo à consulta de email, às reuniões, apresentações e seminários. Sempre que possível dedico especial atenção à leitura das publicações científicas mais recentes.

Naturalmente, por muito organizada que seja, o meu dia inclui também a resolução de vários problemas que surgem na vida de todos os investigadores, quer relacionados com as experiências propriamente ditas, quer relacionados com o laboratório, ou mesmo relacionadas com a ajuda a colegas de trabalho.

O que me motiva como investigadora são a vontade de contribuir com novas informações à comunidade científica que possam resultar numa prevenção, deteção ou tratamento eficaz do cancro. Contribuir com algum conhecimento que beneficiará as gerações futuras é a ambição de qualquer investigador.

3- Na tua opinião, qual o papel do investigador na sociedade?

Na minha opinião, o investigador deve colocar todo o seu esforço, perspicácia e criatividade para investigar de uma forma séria e competente sobre os diferentes aspetos importantes para a saúde e bem-estar da sociedade e/ou para a divulgação de conhecimento em geral. Com a divulgação do resultado das suas investigações, com a contribuição ativa nas áreas de interesse geral, inconscientemente o investigador sensibiliza a sociedade para a importância da investigação científica na melhoria das suas condições de vida, tal como para o enriquecimento do conhecimento em geral, igualmente vital para o progresso e avanço intelectual da sociedade.

A transmissão do conhecimento adquirido pelo investigador para as gerações futuras é algo que considero igualmente essencial. É fundamental a formação de uma nova geração de cientistas com uma visão crítica e criativa, dispostos a alterar muitos dos dogmas/sistema da sociedade científica atual. A meu ver, a participação no ensino ou em atividades de formação e divulgação científica com crianças e jovens deverá ter uma importância considerável na vida do investigador, tal como a divulgação e partilha do seu trabalho para a comunidade científica ou para os órgãos de comunicação social o tem.

4- Na tua opinião, qual a descoberta científica mais importante para a humanidade feita até ao momento e porquê?

É bastante difícil responder a esta pergunta, como devem imaginar. Para mim, tal como para muitos investigadores, são várias as descobertas científicas extremamente valiosas para a humanidade.

Curiosamente vou citar a que me parece mais óbvia para além da descoberta da estrutura da dupla hélice do DNA em 1953, ou seja a descodificação completa do genoma humano onde foram utilizados mais de 10 anos para reunir as informações pretendidas que ofereceram avanços importantes para a compreensão dos mecanismos fundamentais da vida, com eventual aplicação médica. Muitos dos projetos da última década sobre deteção, diagnóstico e prognóstico de muitas doenças humanas baseiam-se no estudo de muitos dos genes revelados por este projeto que desvendou o código genético, o “livro da vida”.

Sem dúvida alguma que a revolução tecnológica das últimas décadas é fundamental para a investigação cada vez mais precisa. Os inúmeros avanços nas áreas da biologia molecular e celular, entre outras, facilitam atualmente em muito a vida dos investigadores. A quantidade de informação obtida e a redução do tempo consumido na obtenção desses novos dados não se pode comparar com o trabalho de alguns investigadores há alguns anos atrás e estão a revolucionar as conquistas do conhecimento.

5- Qual a questão científica que gostarias de ver respondida nos próximos anos e porquê?

Uma das questões que me fascinam e que gostaria imenso de ver respondida consiste na compreensão da influência pessoal do ser humano na predisposição, aparecimento e desenvolvimento de uma massa tumoral.

A origem do cancro encerra várias interrogações, mesmo sabendo que o seu aparecimento não tem uma causa única, são vários os fatores que induzem ou favorecem o seu desenvolvimento (exemplo, fatores genéticos e ambientais). É de conhecimento geral que existem vários cancros com origem hereditária, mas esses casos correspondem a uma minoria, a maioria dos tumores são considerados esporádicos, surgindo ao acaso. Sabe-se igualmente que a alimentação e os hábitos de vida têm uma influência no desenvolvimento tumoral.

No entanto, o ser humano controla e regula os diferentes processos vitais utilizando o cérebro, sendo este o centro de controlo de quase todas as atividades necessárias à sobrevivência, bem como de todas as emoções, estando ainda responsável de receber e interpretar os inúmeros sinais enviados pelo organismo e pelo ambiente exterior. O cérebro e as suas funções cerebrais são o objetivo de estudo das Neurociências.

Desta forma, gostaria de aliar duas grandes áreas do conhecimento científico, a Oncologia e asNeurociências, para definir qual o papel do nosso cérebro e dos seus produtos na origem de um tumor, qual a sua influência na desregulação das múltiplas vias metabólicas e dos mecanismos moleculares essenciais para a vida celular. No meu ponto de vista, o conhecimento das alterações moleculares no interior de cada célula tumoral é importante e reúne muito esforço e investimento atualmente, mas é variável de tumor para tumor, daí a importância de conhecer verdadeiramente qual o mecanismo causal e regulador das alterações celulares sucessivas que resultam em malignidade. Como exemplo, existe uma série de evidências que assinalam a importância do Sistema Imunológico no tratamento de alguns cancros metastáticos.