10 June

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Simão Rocha (Biologia)

  •  June 10, 2015   — June 10, 2015
  • 12:00 am — 12:00 am

O que fazem os investigadores? Qual o seu papel na sociedade? Quais as descobertas mais importantes realizadas até ao momento e o que falta ainda descobrir? Estas são algumas das questões que tentaremos responder através de entrevistas a diferentes membros da AGRAFr, que fazem investigação em diversas áreas do saber, desde as ciências da vida às ciências sociais e humanas.

SIPN-8JB9-DJZ6-ZJNC

Nome: Simão Teixeira da Rocha
Localidade (Portugal): Arouca
Localidade (França): Trocou Paris por Lisboa recentemente
Formação Académica: Doutoramento na área da Biologia
Ocupação Atual: Investigador FCT (Instituto de Medicina Molecular, Lisboa)
Relação com a AGRAFr: Membro desde 2013 (Alumni desde 2015)

 

1- Podes explicar, para um público não especializado, em que consiste o teu projeto de investigação?

A minha área de investigação é a epigenética, que quer dizer, “além da genética”.  No fundo, trata de fenómenos que não conseguem ser explicados pela genética. No meu caso específico, estudo um fenómeno chamado inativação do cromossoma X. Como é sabido, as fêmeas de mamíferos têm dois cromossomas X e os machos um X e um Y. Os cromossomas podem ser vistos como livros que contém informação genética. Ora, o cromossoma Y é um livro finíssimo. Pelo contrário, o cromossoma X é um calhamaço muito rico em informação genética, criando um desequilíbrio em informação genética entre fêmeas e machos. Para colmatar esta diferença, todas as células de um organismo fêmea fecham a sete chaves um dos dois cromossomas X. Os dois cromossomas existem numa célula, mas um deles é inativo, isto é, a informação genética está lá, mas nunca é lida. O meu projeto de investigação estuda os processos moleculares subjacentes ao processo de inativação do cromossoma X. Uma vez que este fenómeno não é determinado pela genética, pois os dois cromossomas X são idênticos em termos de sequência de DNA, este fenómeno constitui um paradigma de um processo epigenético, em que é preciso invocar outras leis “além da genética”.

2- Como é o teu dia a dia e o que te motiva no teu trabalho?

O meu dia a dia é normalmente muito preenchido. Eu gosto de começar cedo, embora não tenha horários a cumprir. Num dia normal, passo-o entre as experiências que ocupam uma grande fração do meu tempo, mas também em reuniões e apresentações, e sempre que possível gosto de me dedicar à leitura da literatura científica mais recente.  Embora seja organizado, tenho sempre um plano de trabalhos demasiado ambicioso, pelo que muitas das vezes não o consigo cumprir na íntegra. Especialmente, porque a vida num laboratório repleto de pessoas curiosas e interessantes é muito fácil de se deixar divagar por outros interesses e curiosidades que surgem na discussão com os colegas. Para além da curiosidade subjacente à descoberta de novo conhecimento, a interação frutífera com os meus colegas num grupo de investigação de exceção são, sem dúvida, as principais razões que me motivam a caminho do trabalho todos os dias.

3- Na tua opinião, qual o papel do investigador na sociedade?

A função primeira de um investigador é investigar, o que exige muita concentração e dedicação. Obviamente, isto nunca pode ou deve ser feito de costas voltadas para a sociedade e os seus problemas. Ao mesmo tempo, é necessário garantir que a veia criativa do investigador seja garantida sem interferências. Mas obviamente o investigador, enquanto cidadão, deve ter um papel preponderante na sociedade. Desde logo, o investigador tem acesso privilegiado  às novas descobertas e, desde logo, deve ter um papel ativo na divulgação de novo conhecimento junto da sociedade. Por outro lado, deve traduzir como o novo conhecimento ou o avanço de novas tecnologias interfere no melhoramento das condições de vida e bem-estar em sociedade. O investigador enquanto especialista em determinadas matérias deve interferir ativamente sempre que generalizações erróneas ou informações falsas são disseminadas através dos órgãos de comunicação social. Finalmente, deve sensibilizar a sociedade para a importância da investigação científica como motor de progresso das nossas condições de vida e no bem-estar em sociedade.

4- Na tua opinião, qual a descoberta científica mais importante para a humanidade feita até ao momento e porquê?

Esta é, sem dúvida, uma pergunta de resposta difícil. Eu vou “puxar a brasa para a minha sardinha”, e discutir duas descobertas científicas que considero tiveram muito impacto na biologia moderna, uma no século passado e outra na última década. A primeira foi a revelação da estrutura da dupla hélice do DNA. Esta descoberta, que remonta à década de 1950, não só permitiu a determinação da estrutura da molécula de DNA, como também estabeleceu as regras surpreendentemente simples de emparelhamento das quatro letrinhas com que se escreve a nossa informação genética. Esta descoberta está na origem da criação da disciplina de biologia molecular e forneceu a base dos grandes avanços científicos que possibilitaram uma melhor compreensão tanto dos fenómenos fundamentais do funcionamento de uma célula, como das bases genéticas de muitas doenças.

O que é curioso considerar é que todas as células do nosso organismo são constituídas virtualmente pelo mesmo material genético. E, no entanto, elas podem ser bem diferentes: células de músculo, da pele, neurónios, etc. Isto significa que apesar do material genético ser o mesmo, ele não é lido da mesma maneira. Não nos basta saber a informação genética para saber como uma célula funciona. Cada célula é programada de forma a ter acesso a uma fração só da informação genética. As regras com que isto é estabelecido ainda são mal compreendidas e por muito tempo pensava-se serem irreversíveis. Uma das descobertas mais importantes da última década, galardoada com o prémio Nobel da Fisiologia e Medicina de 2012 permite-nos começar a encarar esta questão com mais otimismo. Esta descoberta permitiu transformar ou reprogramar células adultas em células indiferenciadas e pluripotentes, chamadas células estaminais. Esta descoberta mostrou que as células podem ser muito mais plásticas do que inicialmente previsto e permite-nos agora estudar os mecanismos subjacentes a essa transformação.

5- Qual a questão científica que gostarias de ver respondida nos próximos anos e porquê?

Uma das questões que me fascina muito e que vem no seguimento da resposta anterior é perceber como a informação genética é “lida” de diferentes formas pelas diversas células do organismo. À medida que as células seguem o trilho de um determinado destino celular e se especializam, ativam um programa genético especifico. Sabe-se já da importância de determinadas proteínas, ditas fatores de transcrição, na determinação de certos destinos celulares e também do papel de agentes, chamados de uma forma lata, epigenéticos na regulação e manutenção dessas escolhas. Os agentes epigenéticos determinam, por exemplo, que certas informações genéticas que estejam ativas numa célula, se mantenham ativas nas suas células-filhas, ao mesmo tempo que mantêm outras informações silenciadas. No entanto,  continua-se sem se saber qual a quota parte da importância dos fatores de transcrição e dos agentes epigenéticos na definição de destinos celulares e menos ainda sobre a interação entre eles neste processo. Ao mesmo tempo, o grau de plasticidade e os mecanismos moleculares subjacentes com que as células podem reverter as suas escolhas no curso do processo de especialização são ainda mal conhecidos.

Este conhecimento é fundamental para compreendermos como as diferentes células se diferenciam ao curso do desenvolvimento de um organismo e ajudar-nos-á a compreender melhor quando algo corre mal, como no caso das células cancerígenas. Além disso, uma melhor compreensão destes mecanismos possibilitará desenvolver métodos experimentais para reverter destinos celulares de maneira controlada no laboratório. Isso é exemplificado pelo caso que referi anteriormente, da reprogramação de células adultas em células estaminais e de outros processos ainda mal compreendidos como o caso da transdiferenciação (transformação de uma célula diferenciada A numa célula B). São nestes métodos experimentais de reversão de identidades celulares que se deposita a grande esperança para o futuro da medicina regenerativa personalizada: a possibilidade de criar células estaminais ou certas células especializadas nossas em laboratório permitirão o uso destas células para substituir células que se perderam por causa de acidentes ou doenças.

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