23 June

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Os escritores da AGRAFr: Nuno Gomes Garcia

  •  June 23, 2015   — June 23, 2015
  • 03:00 pm — 04:00 pm

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“Tenho uma regra para escrever:

parto sempre de uma premissa louca, completamente irrealista, que possa levar o ser humano aos seus limites e à transformação

 

1. Podes falar-nos da tua formação académica e percurso profissional, e de como eles influenciam a tua atividade literária?

Estudei História e Arqueologia e comecei, logo no começo do meu segundo ano de curso, a trabalhar profissionalmente como assistente de arqueólogo. Um trabalho que, na altura, quando se olha para a situação atual, era muito bem pago. Esse salário, durante esses anos deu para pagar os estudos, ter uma vida independente, comprar livros e viajar. E viajar aos vinte anos de idade não é o mesmo que viajar aos quarenta. É tudo muito mais intenso, como se sabe.

Passei, portanto, antes de vir para França, uma dúzia de anos a trabalhar em Arqueologia. Primeiro, como assistente, depois como arqueólogo de campo e, enfim, como diretor de escavação. O trabalho que fazia era, em grande parte, num contexto que nós chamamos de Arqueologia preventiva, quase sempre em ambiente urbano. No fundo, era fazer ciência a grande vitesse e sobre a mira constante da retroescavadora que nos perseguia.

Respondendo à segunda parte da tua pergunta. Eu creio que a Arqueologia me deu uma certa sensibilidade para tratar das questões da materialidade em relação ao Passado e isso ajuda-me imenso na criação literária. Graças a essa profissão, desenterrei, toquei e estudei artefactos que foram utilizados por pessoas já desaparecidas. Elas, todavia, eram muito reais na minha cabeça, mais ainda quando o trabalho era em contexto funerário, fossem inumações ou cremações, porque, nesses casos, vias, realmente, o que restava delas, da mesma maneira que, algum triste dia, alguém verá o que resta de nós. No fundo, para ser um bom arqueólogo, temos de dar corpo, uma vida, a essas pessoas que existiram. Ao mexer no lixo que elas deixaram para trás, nós compreendemo-las de uma maneira que, por exemplo, um historiador, que só lê o que elas escreveram, não consegue.

Então, para desempenhar bem o trabalho, nós temos de criar personagens e inseri-las numa estrutura social e cultural que já não existe. Temos de lhes atribuir rotinas, roupas, falas, ações, recriar os locais onde habitavam, se eram pobres ou ricos, ou descobrir, muitas vezes conjeturar, sobre o que os conduziu à morte. Como vês, é quase como escrever um romance.

2. Escreveste dois romances históricos, “O Soldado Sabino”, em 2012, e “O Dia em que o Sol se Apagou”, que acabou de sair e foi finalista do prestigioso prémio Leya. Fala-nos um pouco de como conseguiste conciliar a veracidade histórica e a fantasia própria do romance.

Acho muito difícil atribuir géneros a certas obras. Nem sei muito bem se os dois romances que escrevi se poderão enquadrar nessa grelha tão apertada. Mas, muito bem, partamos do princípio que são, como dizes, dois romances históricos.

Há quem diga que escrever romances históricos é para quem não tem imaginação suficiente e, por isso, se tem de agarrar aos factos históricos para compensar essa debilidade. E, na verdade, quando olhamos para muitas obras que inundam o mercado – que, muitas vezes, não passam de meros relatos historiográficos com diálogos e pouco mais – poderemos pensar que esses críticos têm razão. Mas, depois, pensamos um pouco melhor, e vem-nos à cabeça o “Nome da Rosa” do Umberto Eco, ou o “Memorial do Convento” do meu querido José Saramago ou “O último cabalista de Lisboa” do Richard Zimler. Então, concluímos: ou quem menoriza o romance histórico está enganado ou, então, estes três senhores que mencionei atrás não escrevem romances históricos. Ora, a meu ver, nem uma coisa nem outra. Existe, como tudo na vida, romances históricos bons e outros maus. Infelizmente, os maus dão um péssimo nome ao género, mas, curiosamente, são, segundo o que dizem, os que mais vendem.

Julgo que os dois romances, mais o segundo que o primeiro, são, mais do que qualquer coisa, um exercício de imaginação e de fantasia. É verdade que existem muitos personagens que existiram na realidade – D. João II e os seus sábios, Azambuja, o capitão-mor de São Jorge da Mina, Pêro da Covilhã, Cristóvão Colombo, entre muitos outros -, mas tudo o resto é mentira, é falso.

É aí que, como dizes, conciliei a veracidade histórica e a fantasia própria do romance. E consegui-o à minha maneira, criando uma premissa inteiramente irrealista. Se em “O soldado Sabino”, o protagonista busca, através do canibalismo, ao que ele pomposamente chama de ciência, a cura para a sua doença; em “O dia em que o Sol se apagou” deixo Portugal às escuras, inundado e frio durante anos a fio, e ponho os portugueses ativamente à procura do seu destino. Como vês, tenho uma regra para escrever: parto sempre de uma premissa louca, completamente irrealista, que possa levar o ser humano aos seus limites e à transformação.

O que pretendo da História, do passado, é questioná-lo e tentar projetá-lo para o presente, talvez até para o futuro. Se em “O soldado Sabino” tento ridicularizar a guerra, mostrar ao leitor o quão parvo e inútil é fazer a guerra; em “O dia em que o Sol se apagou” pretendo que o leitor pense no Portugal contemporâneo e, em contexto de crise, tente encontrar saídas, pois, ao contrário do que dizem, não existe só um caminho. O futuro faz-se optando por uma de várias possibilidades. A Europa é apenas uma delas.

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3. Nos teus livros a temática da viagem é central, os personagens principais por razões diversas saem de Portugal. Existe claramente um paralelo entre a viagem no espaço e a viagem interior dos personagens. Podes falar-nos um pouco dessa dualidade na viagem?

Nestes dois livros a viagem é central, sim. Os protagonistas saem de Portugal, mas, inevitavelmente, levam-no consigo. Portugal é uma nação antiga, étnica e culturalmente coesa, e novecentos anos é tempo mais do que suficiente para ter sido criada uma psyché própria. É essa psyché, que consome os meus personagens, que choca, ao longo da viagem espacial, com o Outro, o estrangeiro, conduzindo-os também a uma viagem interior que culminará na sua transformação. A viagem espacial, lato sensu, aquela que é muito mais do que uma mera deslocação de um ponto para o outro, é transformadora. Nós, os que vivemos no estrangeiro, que contactamos quotidianamente com maneiras diferentes de ver o mundo, também nos transformamos todos os dias. Um meio multicultural – que é hoje tão atacado pelas forças mais reacionárias da sociedade, os “identitários” e outros quejandos – é um poderoso transformador, um meio eliminador de estereótipos, que nos enriquece e nos torna mais tolerantes perante a diferença. Nestes dois romances, uso essas viagens para transfigurar os personagens e eles acabam a viagem espacial muito diferentes do que eram quando a começaram.

4. O teu primeiro romance começa com a seguinte citação: “A ciência consiste na investigação metódica das causas e consequências de certos fenómenos.” Esta preocupação com as causas e consequências também é própria da História enquanto disciplina. É por esse motivo que recorres a uma estrutura narrativa baseada em analepses, que reforça claramente esta temática da causalidade?

O meu estilo é o reflexo do meu próprio mecanismo mental, creio, da maneira como processo pensamentos. Na verdade, tenho algumas dificuldades em escrever narrativas lineares, também porque me parecem sempre muito aborrecidas e demasiado óbvias. Muitas vezes, abro um capítulo com o fim de um evento, mostrando as consequências de alguma coisa, e só depois demonstro o processo, as causas, que conduziram a esse desfecho. Este último romance, por exemplo, abre com o fim, embora não revele o que efetivamente aconteceu.

Os estudos científicos – eu leio imenso sobre ciência, tanto ciências naturais como ciências humanas – partem, muitas vezes, da deteção das consequências de fenómenos desconhecidos. Só então é que se parte à descoberta do que os causa. Voltemos à Arqueologia. Ela é feita da frente para trás, é como construir uma casa ao contrário, uma desconstrução, portanto. Nós partimos da consequência, uma ruína, e recuamos até chegarmos à génese do sítio, à primeira vala de fundação do primeiro edifício, por exemplo. A própria noção de estratigrafia é isso: começa-se pelos estratos superiores, mais recentes, e vai-se por ali abaixo até ao estrato inferior, o mais antigo, terminando apenas nos estratos geológicos, arqueologicamente estéreis.

Não sei, sinceramente, se a minha criação literária e o meu estilo narrativo alicerçado em avanços e recuos, são o resultado da minha experiência científica, da minha antiga profissão. Talvez seja.

5. Para além do questionamento sobre a causalidade, baseado sobretudo em dados fatuais, também existem no teu trabalho reflexões existenciais mais profundas que têm a ver com o questionamento sobre o futuro, sobre o que podemos esperar e aspirar do mundo em que vivemos. Na tua opinião qual é o papel do escritor na sociedade? Se é que ele tem de ter um qualquer papel.

Sim, eu julgo que um romance tem a obrigação de transformar o leitor. Se ele, depois de ler um romance, está igual, se não tem novas questões a colocar sobre o mundo, seja a que nível for, significa que o que leu não é bom.

Um escritor, como todos os que exercem uma qualquer atividade, tem um papel social a desempenhar. O escritor tem, na minha opinião, um duplo papel. Primeiro, tem a obrigação de entreter, de transmitir emoções, ainda mais no dia de hoje em que a literatura compete com duzentos canais de televisão, com o universo da internet ou até com os jogos de computador. Se um leitor pensa “mas que livro tão chato”, como tantas vezes acontece, é a morte do artista. O leitor médio, hoje, não está para ser aborrecido. O segundo papel é, sem descurar o primeiro, o de ajudar o leitor a questionar-se sobre o que o rodeia, o de dar corpo ao poder transformador da literatura. É esse o equilíbrio a que qualquer bom escritor deverá almejar. É isso que eu tento fazer, dar entretenimento e, simultaneamente, provocar um autoquestionamento no leitor, seja sobre a parvoíce que é a guerra, seja pensar o lugar, ou lugares, do Portugal contemporâneo.

Entrevista de Luísa Semedo

 

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