22 June

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Nuno Marinho (Engenharia Electrotécnica)

  •  June 22, 2015   — June 22, 2015
  • 12:00 am — 12:00 am

O que fazem os investigadores? Qual o seu papel na sociedade? Quais as descobertas mais importantes realizadas até ao momento e o que falta ainda descobrir? Estas são algumas das questões que tentaremos responder através de entrevistas a diferentes membros da AGRAFr, que fazem investigação em diversas áreas do saber, desde as ciências da vida às ciências sociais e humanas.

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Nome: Nuno Marinho
Localidade (Portugal): Porto
Localidade (França): Paris
Formação Académica: Mestrado em  Engenharia Electrotécnica e Computadores
Ocupação Atual: Doutorando em Engenharia Electrica
Relação com a AGRAFr: Membro desde 2013

1- Podes explicar, para um público não especializado, em que consiste o teu projeto de investigação?

O meu projecto de investigação consiste no desenvolvimento de um modelo representativo da rede de electricidade europeia que permita a realização de estudos do mercado de electricidade num horizonte temporal de 20/30 anos. As especificidades da electricidade, (que teima sempre em obedecer às leis da física) fazem com que a sua cadeia de distribuição não possa ser gerida como a de qualquer outro produto (ex agua engarrafada, roupa, …) na qual o seu transporte (fazer um desvio se a estrada estiver congestionada), e armazenamento (armazenar se todas as estradas estiverem congestionadas) podem ser facilmente alterados de acordo com o óptimo económico. No caso da electricidade, o seu armazenamento é muito difícil/ineficiente e o seu caminho é definido com base nas características físicas das linhas de transmissão sendo indiferente se o percurso já esta congestionado ou não. Um transporte ineficiente, leva a um aumento dos preços que é reflectido na factura do consumidor final, impactando fortemente a economia de um pais.
Tudo isto faz com que seja vital a definição de um modelo que permita aos engenheiros optimizar ao máximo o transporte da electricidade, maximizando a função de bem-estar social.

2- Como é o teu dia a dia e o que te motiva no teu trabalho?

A minha tese de doutoramento está integrada numa empresa de investigação e desenvolvimento o que faz com que o meu tempo seja divido entre a empresa e a escola. Apesar de o meu foco ser centrado no meu tema de investigação, a integração em meio empresarial ao mesmo tempo que académico, permite-me interagir com diferentes pessoas e projectos de temas transversais na área da energia fazendo com que cada dia seja diferente e evitando uma visão em túnel do meu trabalho. A minha motivação advém não só desta diversidade como também de sentir que trabalho ao lado de investigadores de referência na minha na área, que me proporcionam todas as condições para o desenvolvimento do meu projecto e se interessam genuinamente pelo meu trabalho.

3- Na tua opinião, qual o papel do investigador na sociedade?

Na minha opinião, há dois pontos importantes na relação do investigador com a sociedade que estão essencialmente ligados à forma como estabelece a ligação entre o seu papel como cidadão e como investigador.
Em primeiro lugar o investigador deve introduzir, sempre que possível, a dimensão social no seu trabalho. E importante avançar no sentido do bem-estar colectivo, e não na satisfação de necessidades individuais, e esse papel cabe a cada um de nos em cada tarefa que realizamos, mas toma uma preponderância especial enquanto investigadores.
Por outro lado, o investigador deve, sempre que possível, aproximar a sociedade da sua investigação, explicando de forma clara e concisa o seu trabalho. Tem de ser seu objectivo contrariar a caricatura do investigador fechado no laboratório, isolado e absorvido num trabalho de impossível compreensão, que cria um distanciamento da sociedade em relação à investigação que em nada beneficia nenhuma das partes. Faz parte do trabalho do investigador conseguir explicar a qualquer pessoa, o porquê da utilidade do seu trabalho (e o porquê da investigação ser um “trabalho a sério”).

4- Na tua opinião, qual a descoberta científica mais importante para a humanidade feita até ao momento e porquê?

Perante uma pergunta tão difícil, e não conseguindo definir a descoberta mais importante, escolho uma das que na minha opinião (enviesada pela minha área de formação) mais impactaram a nossa maneira de viver. A descoberta da indução electromagnética por Michael Faraday (descobriu que é possível gerar electricidade movendo um íman numa bobine de cobre) lançou as bases para a industria da produção de electricidade tal como a conhecemos hoje. Faraday lançou as bases de um modelo que foi sempre sendo aperfeiçoado ao longo do tempo, e que permitiu enormes avanços para a sociedade. Poucos anos depois da sua descoberta, a electricidade começa a ganhar a sua importância alimentado grande parte da industria, o sector dos transportes e também a iluminação domestica (depois da invenção da lâmpada por Edison).

Este processo mágico de carregar no interruptor e fazer com que a lâmpada ligue, veio a ganhar cada vez mais importância nas nossas vidas, sendo que podemos hoje considerar a electricidade como um bem essencial. A forma como a electricidade serve e serviu de base para o desenvolvimento do conhecimento não pode ser ignorada e apesar de directamente a descoberta de Faraday não ter tido um impacto fundamental para a humanidade, é quando pensamos no seu impacto indirecto que conseguimos perceber verdadeiramente a sua importância.

5- Qual a questão científica que gostarias de ver respondida nos próximos anos e porquê?

Apesar de não ter nenhum conhecimento sobre o tópico, tenho bastante interesse em seguir os avanços na medicina. Não consigo definir nenhuma questão específica que gostasse de ver respondida, mas do ponto de vista de espectador, gostaria bastante de ver uma melhor compreensão da forma como o cérebro funciona. Para mim que não entendo nada do assunto, o cérebro parece-me uma caixa negra muito poderosa à qual fornecemos os inputs e esperamos que ele retorne os outputs sem perceber muito bem o que acontece lá dentro. Acho que todos os avanços que já foram feitos até hoje permitem que as pessoas que trabalham na área percebam um pouco do que se passa dentro da caixa, mas do meu ponto de vista existem ainda muitas abordagens, como por exemplo o tratamento de psicopatologias com inibição de neuro receptores, que dentro de algum tempo poderão ser vistos como hoje vemos as lobotomias de Egas Moniz como solução para a esquizofrenia.

De um ponto de vista mais de engenharia, o ideal seria atingir um tal nível de conhecimento que pudesse levar a tratar o nosso cérebro como um computador, no qual os inputs podem ser substituídos da mesma forma que trocamos os periféricos que já não funcionam nos nossos computadores, um pouco à semelhança do implante coclear que resolveria a maior parte das limitações que limitam a qualidade de vida de muita gente hoje em dia.

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