22 July

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Miguel Lopes (Biologia)

  •  July 22, 2015   — July 22, 2015
  • 12:00 am — 12:00 am

O que fazem os investigadores? Qual o seu papel na sociedade? Quais as descobertas mais importantes realizadas até ao momento e o que falta ainda descobrir? Estas são algumas das questões que tentaremos responder através de entrevistas a diferentes membros da AGRAFr, que fazem investigação em diversas áreas do saber, desde as ciências da vida às ciências sociais e humanas.

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Nome: Mguel Lopes
Localidade (Portugal): Lisboa
Localidade (França): Paris
Formação Académica: Doutorado em Biologia do Desenvolvimento (área cardiovascular)
Ocupação Atual: Investigador pré-clinico
Relação com a AGRAFr: Co-fundador e tesoureiro

 

1- Podes explicar, para um público não especializado, em que consiste o teu projeto de investigação?

Depois de terminar o meu doutoramento decidi abandonar a investigação fundamental de forma a desenvolverprojectos com uma aplicação industrial. Primeiro, trabalhei durante  quatro anos numa empresa farmacêutica, num projecto que visava desenvolver ferramentas informáticas que ajudassem a compreender melhor como se desenvolve o cancro e consequentemente a desenvolver terapias mais adaptadas. Os processos que conduzem ao desenvolvimento do cancro são extremamente complexos pois as células cancerígenas desenvolvem facilmente mecanismos de resistência aos tratamentos através de mutações no seu ADN ou através da activação de mecanismos de sinalização alternativos aos que foram afectados pelas terapias. Adicionalmente, existe uma enorme variabilidade na forma como cada paciente responde aos tratamentos. Centenas de artigos são publicados todos os anos descrevendo novos aspectos e informações desses mecanismos de resistência.

A quantidade de informação hoje conhecida sobre o cancro é largamente superior aquela que o cérebro humano tem a capacidade de assimilar, pois todos os anos centenas de novos artigos são publicados descrevendo novos aspectos e mecanismos. O projecto no qual participei visava desenvolver modelos informáticos que tivessem em conta toda essa informação de forma a prever como  responde o cancro quando submetido ao tratamento X ou Y. Em consequência poderemos desenvolver tratamentos cada vez mais adaptados a cada paciente, a chamada “Medicina Personalizada”.

Actualmente, trabalho como “Pré-clinical Scientist” numa jovem empresa que desenvolve dispositivos médicos que podem permitir em breve facilitar e optimizar diversos tipos de cirurgias. Mais concretamente trabalho na descoberta e validação de novas “colas” ou “fita colas” que poderão em breve substituir os comuns suturas ou agrafos…. acreditamos que os nossos produtos têm diversas vantagens em relação a estes métodos. Por exemplo, todos os anos, só nos Estados Unidos, 40 000 mil bébés nascem com malformações cardíacas. Muitas delas são tratadas através de cirurgias arriscadas a “coração aberto”. As suturas ou agrafos aplicadas no coração nesse tipo de cirurgias podem danificar gravemente esses tecidos frágeis e estão associados a complicações nos anos seguintes. As colas nas quais estamos a trabalhar têm  características que as tornam candidatas ideais a substituir estas suturas ou agrafos. São flexíveis, biocompativeis, biodegradáveis e comportam-se muito bem na presença de líquidos como o sangue. Além disso, ao contrários das suturas que podem exigir dezenas de minutos a serem aplicadas a nossas colas podem ser aplicadas em segundos. Assim sendo, poderemos originar um benefício clínico para o paciente mas também um benefício em termos práticos para o cirurgião. A cirurgia cardiovascular é uma das indicações que temos em vista mas estamos actualmente a investigar outras que possam ajudar a melhorar a qualidade de vida de muitos pacientes.

2- Como é o teu dia a dia e o que te motiva no teu trabalho?

O que me motiva principalmente no dia-a-dia é facto de saber que o meu trabalho pode ajudar a salvar vidasou pelo menos a melhorar a qualidade de vida de muitos pacientes. Adicionalmente, uma das minhas principais missões é “ser criativo”, isto é, agarrar nos produtos que temos e identificar novas aplicações nas quais possam fazer a diferença. Esse desafio obriga-me a pensar “out of the box”, a discutir com colegas e médicos, a estar informado sobre o que fazem os outros… estas tarefas são o dia a dia do investigador e a razão pela qual escolhi esta profissão.

Por último, a empresa na qual trabalho é composta por pessoas bastante dinâmicas, com experiencias profissionais e formação bastante distintas, isso permite-me acordar todos os dias e saber que vou aprender coisas novas todos os dias.

3- Na tua opinião, qual o papel do investigador na sociedade?

Na minha opinião o investigador é alguém que produz conhecimento, seja ele fundamental (como por exemplo, como se multiplicam as células de cancro) ou aplicado (como o produto X pode ajudar o paciente Y). O investigador deve ser o garante da qualidade e veracidade do conhecimento que produz assim como da transmissão e valorização desse mesmo conhecimento, pois não basta produzir conhecimento, temos de transformar esse conhecimento em algo de valor para a sociedade.

4- Na tua opinião, qual a descoberta científica mais importante para a humanidade feita até ao momento e porquê?

É difícil indicar uma descoberta como a mais importante pois já houveram muitas descobertas fantásticas que mudaram o curso da história.

Contudo, tenho um “carinho especial” pelo trabalho que foi feito por Louis Pasteur, pois tive a sorte de ter trabalhado e estudado no Institut Pasteur onde o próprio Louis Pasteur viveu e trabalhou.

Acho especialmente impressionante a descoberta da vacina contra a raiva. A primeira vacina alguma vez produzida com sucesso, permitindo salvar uma quantidade enorme de doentes. Para além disso o processo que conduziu ao desenvolvimento da vacina desvendou um pouco mais sobre como  funciona o sistema imunológico e abriu a porta a muitos outros tratamentos baseados no mesmo principio. A forma de trabalhar de Louis Pasteur foi também em si revolucionária. Numa altura em que os investigadores trabalhavam sozinhos, Louis Pasteur soube rodear-se de colegas com conhecimentos complementares aos seus como Emile Roux, Shibasaburo Kitasato ou Emil Adolf von Behring.

5- Qual a questão científica que gostarias de ver respondida nos próximos anos e porquê?

O aumento da esperança de vida e as mudanças do estilo de vida nos países desenvolvidos têm levado a um aumento significativo da incidência das doenças oncológicas. Muitos de nós já vivemos de perto ou de longe dramas ligados a problemas oncológicos. As doenças do fórum oncológico são muito difíceis de diagnosticar e tratar. O tratamento de primeira linha quando um cancro é detectado é a remoção por cirurgia. Contudo, a cirurgia deixa de ser uma opção eficaz quando os pacientes são detectados numa fase metastática. As metástases são células cancerígenas que abandonam o tumor inicial e entram na circulação sanguínea, podendo alojar-se e desenvolver um outro tumor noutro tecido. Os tumores detectados num estado metastático têm um tratamento muito mais difícil. O tipo de tratamento que as pessoas mais conhecem é a quimioterapia. Este tipo de tratamento impende a divisão das células cancerígenas mas tem também um forte impacto nas células “saudáveis” do paciente, estando assim associado a graves efeitos secundários. Infelizmente, certos tipos de tumores desenvolvem resistência a este tipo de tratamentos. Nos últimos anos um novo tipo de terapias tem vindo a ser desenvolvido com resultados extremamente prometedores em modelos animais. Estas nova terapias, estimulam o sistema imunitário do paciente a reagir contra as células tumorais eliminando-as ou impedindo que estas de dividam. A comunidade científica deposita actualmente uma enorme esperança neste tipo de terapias que estão já actualmente a serem testados em humanos e que dentro de 2 ou 3 anos poderão chegar aos hospitais. Eu acredito também firmemente na capacidade destas terapias e acho que podem ajudar uma grande percentagem dos pacientes portadores de cancro.

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