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Lyon-Café com Maria de Fátima Mendes : Diplomacia- escolha pessoal?

  • Cônsul-Geral de Portugal em Lyon
  •  September 28, 2015   — September 28, 2015
  • 05:00 pm — 06:00 pm

O evento inaugural da delegação da AGRAFr em Lyon contou com a presença de uma quinzena de participantes, que se reuniram no centro da cidade para conhecer mais de perto a primeira convidada do  “Lyon Café com…”, Maria de Fátima Mendes,  Cônsul-Geral de Portugal em Lyon.

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Maria de Fátima Mendes nasceu em Lisboa, na zona da Estrela, onde viria a viver já na idade adulta após ter passado por várias cidades do país seguindo os seus pais então professores. Por volta dos 5 anos “já queria conhecer o mundo do outro lado da estrada”: sentia uma curiosidade imensa por aquelas mulheres, sobretudo as antigas maçadeiras na sua labuta diária. Descreve-se como ““ouseira e fazeira”, com uma vontade precoce de sair da zona de conforto e ir ao encontro dos outros.

O seu percurso académico passou pela licenciatura em História, na Universidade de Lisboa, e inclui dois mestrados em Relações Internacionais e Estudos de Cultura. Antes de abraçar a carreira diplomática em 1983, Maria de Fátima Mendes foi professora de História em Lisboa, um início que considera ter-lhe proporcionado “uma visão geral do mundo”, importante para as suas escolhas subsequentes. O primeiro desafio, e aquele que considera o mais marcante da sua carreira, foi a colocação no estrangeiro, que aconteceu pela primeira vez em 1988, na delegação de Portugal na UNESCO, em Paris. Desde então, já contribuiu para a diplomacia portuguesa nas Nações Unidas, em Timor-Leste (representação diplomática), no Consulado-Geral em Genebra e agora no Consulado-Geral em Lyon. Todas as experiências passadas a marcaram de forma diferente, todavia, Maria de Fátima Mendes destaca a passagem pelas Nações Unidas, em Nova Iorque, como aquela que mais foi ao encontro das suas afinidades pessoais e profissionais. Pela descoberta de como funcionam as relações internacionais, pela partilha intelectual com pessoas brilhantes, pela aprendizagem em como estabelecer uma negociação e sobretudo, pela “descoberta do que se é e do que se pode ser”.

Diplomacia: Relações Humanas e Objetivos Intelectuais

A nossa convidada fala-nos da diplomacia como o estabelecimento das relações humanas (entre indivíduos e nações) aliado ao conjunto de ações que correspondem à concretização dos objetivos intelectuais de cada parte. A diplomacia implica chegar a consenso (negociação), indo ao encontro do outro com naturalidade e pressupondo a existência de boa vontade entre as partes, sem nunca esquecer os interesses de Portugal. O diplomata tem margem de manobra para assumir uma posição flutuante no estabelecimento de um consenso, que uma entidade estatal não poderá manifestar. As representações diplomáticas têm duas vertentes: a bilateralidade (presença em embaixadas e redes consulares) e a multilateralidade (presença em organismos internacionais, como a UNESCO ou a NATO).

Diplomatas: pessoas singulares

Maria de Fátima Mendes compara um diplomata com um militar, no sentido em que os dois têm de obedecer a instruções precisas, possuindo também algum espaço de manobra e fazendo sempre uso de bom senso, ao lidar com as situações. Um diplomata tem de agir em defesa do Estado, mantendo a sua autenticidade e a ética pessoal e deontológica. Segundo Maria de Fátima Mendes, um bom diplomata tem de “ser verdadeiro e direto, sem ser ofensivo”, apresentar um sentido de equidade, estar bem informado, e simultaneamente, saber manter distância, para criar espírito crítico e neutralidade. Neste ponto, Maria de Fátima Mendes dá o exemplo da sua recusa pessoal à militância partidária. Para além do mais, segundo a convidada, um bom diplomata sabe manter-se na sombra para fazer bem o seu papel: a defesa dos interesses de Portugal, atuando como ponte entre o país e os seus interesses além-fronteiras. A credibilidade de um diplomata joga muito em favor da estabilidade das relações diplomáticas entre dois Estados. Maria de Fátima Mendes pensa que os diplomatas começam a carreira cada vez mais bem preparados. No entanto, existe um risco atual de se tornarem demasiado especializados, o que poderá interferir com uma das grandes características de um diplomata: saber um pouco de tudo e saber lidar com todas as situações.

Maria de Fátima Mendes abraçou a carreira de diplomata há mais de três décadas, tendo um percurso de sobriedade profissional e muito respeito pelos que a rodeiam. Revelou-nos que tem ainda “uma experiência por fazer”: desempenhar funções na NATO, pois a Segurança e a Defesa, juntamente com a Cultura, são as temáticas que mais lhe agradam. Considera que Portugal tem uma posição forte enquanto país-ponte com várias realidades, pela sua história e cultura. Mulher de força, trabalhou sempre em prol da sua carreira, ao encontro dos outros, respeitando sempre as premissas do papel que escolheu para si. Neste dia, trouxe-nos uma lição em diplomacia e em espírito de missão. Muito obrigada.

Cristina Gertrudes & Ana Rita Furtado

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