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Luísa Semedo (Filosofia)


  •  February 19, 2015   — February 19, 2015
  • 12:00 am — 12:00 am

O que fazem os investigadores? Qual o seu papel na sociedade? Quais as descobertas mais importantes realizadas até ao momento e o que falta ainda descobrir? Estas são algumas das questões que tentaremos responder através de entrevistas a diferentes membros da AGRAFr, que fazem investigação em diversas áreas do saber, desde as ciências da vida às ciências sociais e humanas.

luisa Semedo

Nome: Luísa Semedo
Cidade (Portugal): Lisboa
Cidade (França): Ivry-sur-Seine
Formação Académica: Doutoramento em Filosofia, especialidade Ética e Política pela Universidade Paris-Sorbonne
Ocupação Atual: Investigadora em Filosofia Ética e Política/ Professora na Universidade de Clermont-Ferrand
Relação com a AGRAFr: Presidente, membro desde 2013

1- Podes explicar, para um público não especializado, em que consiste o teu projeto de investigação?

O meu projeto de investigação baseia-se na temática da minha tese de doutoramento que era sobre a nossa capacidade de empatia. A empatia é a faculdade que temos, e que partilhamos com algumas espécies animais, de ressentir as emoções do outro e de nos podermos pôr no seu lugar. A empatia é portanto, ao mesmo tempo, uma faculdade afetiva e cognitiva. É também uma faculdade precoce e universal. A existência de certas patologias que inibem a empatia como o autismo ou as sociopatias, as experiências com os recém-nascidos ou ainda a investigação a nível intercultural que têm como objeto o comportamento humano e animal demonstram esta universalidade da empatia. O défice de empatia pode ser considerado como uma patologia, uma patologia tanto física como ética e social.

O meu trabalho de investigação estende-se à problemática mais lata da fundação natural da ética e da possibilidade de um progresso moral. A minha teoria é que a nossa faculdade de empatia é essencial ao nosso comportamento moral, que existe uma correlação entre o afetivo e o cognitivo e isso mesmo no caso do comportamento ético, pois para fazermos o bem, para o dizer de maneira simplificada, temos de saber e desentir. 

2- Como é o teu dia a dia e o que te motiva no teu trabalho?

O meu dia a dia é muito variado porque para além do meu trabalho de investigação, da minha atividade associativa e política, dou aulas sobre criação e gestão de associações e ONG’s na Universidade de Clermont-Ferrand. E no fundo todo este trabalho de aparência diversa faz parte de um todo coerente que é o de pensar o mundo e de poder ser um ator na sociedade e não um mero espectador. O que me motiva é precisamente esta mistura entre a teoria e a prática entre a reflexão e a ação. A teoria sem o trabalho de terreno é vazia e a ação sem reflexão é cega, para adaptar livremente uma fórmula célebre de Kant, e é portanto nesta dualidade necessária que encontro a minha motivação e o meu entusiasmo.

Outro factor que me motiva é o facto de o meu trabalho de investigação ser interdisciplinar pois ele envolve não somente as ciências humanas e sociais mas também as ciências naturais, por exemplo os resultados das ciências neurobiológicas incidem sobre o meu trabalho, como no caso das investigações sobre os neurónios espelho. E isso traduz-se num trabalho de investigação empolgante, renovado pelos avanços das ciências naturais. Esta interdisciplinaridade é precisamente um dos vários  pontos fortes de uma associação como a AGRAFr e é um das muitas razões que me levam a que esta actividade associativa faça igualmente parte do meu dia a dia. 

3- Na tua opinião, qual o papel do investigador na sociedade?

Acho que não há um papel específico, cada área tem a sua especificidade, a sua importância, os seus objetivos. No que diz respeito à filosofia penso que o seu papel é extremamente importante pois numa época de ultra-especialização de grande parte das actividades humanas o investigador em filosofia tem o privilégio de poder refletir sobre a sociedade no seu todo. O investigador em filosofia ainda se pode “dar ao luxo” de ter uma parte do seu trabalho que não é diretamente aplicável ou lucrativa. Mas essa parte do trabalho deve depois idealmente servir para agir sobre a sociedade. Por exemplo no meu trabalho de investigação a parte de intervenção é importante pois a minha conclusão é que tendo em conta a importância da faculdade de empatia nos nossos comportamentos éticos isso deverá ter repercussões a nível  pedagógico e a nível de escolhas políticas sobre não somente a educação mas também sobre a política da vida em comunidade, sobre questões de desigualdade, de discriminação, de ecologia, de visão do que queremos como sociedade para os nosso filhos, as gerações futuras e o mundo que nos rodeia.

4- Na tua opinião, qual a descoberta científica mais importante para a humanidade feita até ao momento e porquê?

Eu diria duas das grandes descobertas que atacaram frontalmente o egocentrismo, o narcisismo humano e que mudaram completamente a nossa visão do mundo e do Outro. A primeira é o heliocentrismo pois quando se descobre que a terra não é o centro do Universo isso modifica consideravelmente a nossa relação à natureza, a nossa relação com o sagrado pois o heliocentrismo mete em causa o chamado antropocentrismo, põe em causa o Homem como um ser privilegiado criado por um ser superior.  E a outra descoberta é a teoria da evolução rendida célébre por Darwin, pois uma vez mais ela pôs em causa a nossa relação ao sagrado, a história de Adão e Eva cai por terra, a espécie humana deixa de ser uma espécie à parte, superior, e passa a ser mais um dos elos da evolução, o que atesta igualmente da igualdade de todos os seres humanos, o que apesar de algumas derivas menos felizes como o darwinismo social, tem incidências importantes a nível político e filosófico. A teoria da evolução permite pensar a espécie humana como um todo e refuta por exemplo a ideia de que o homem seria um ser superior e a mulher uma simples “extensão”. No fundo do que estamos aqui a falar são de descobertas científicas que revolucionaram a história da Humanidade, o nosso lugar no Mundo e a visão que temos de nós próprios e dos outros.

Estas descobertas científicas como muitas outras demonstram a incidência directa da ciência na sociedade e a necessidade de fazer um trabalho interdisciplinar, um trabalho que se enriquece consideravelmente da relação estreita entre as ciências naturais, humanas e sociais.  

5- Qual a questão científica que gostarias de ver respondida nos próximos anos e porquê?

Esta pergunta não é de resposta simples pois o domínio da investigação científica é extremamente vasto. Atualmente existem algumas investigações científicas que são bastante interessantes e promissoras como as que dizem respeito à questão da longevidade, aliás em filosofia existe um debate interessante em torno da possibilidade de imortalidade graças ao progresso científico, ou ainda as questões de inteligência artificial, as terapias genéticas, as investigações sobre as energias renováveis, etc. Mas penso que as questões que têm a ver com a saúde são as mais urgentes, e nesse sentido eu diria sem dúvida a cura para o cancro. Infelizmente esta doença tem atingido muitas pessoas e de maneira totalmente aleatória independentemente da idade, dos comportamentos individuais ou dos antecedentes familiares. É uma das principais causas de mortalidade no mundo e é uma doença que pode ser extremamente longa e penosa a nível de tratamentos e com consequências de grande impacto físico, psicológico, social, económico, etc. na vida do doente mas também na dos seus familiares e amigos. E para esta como para muitas descobertas científicas seria importante não somente que as descobertas sejam como é óbvio feitas, mas que depois possam ser rapidamente aplicadas e acessíveis a todos a baixo custo. Como sabemos existem ainda grandes desigualdades no mundo no que diz respeito ao acesso a tratamentos, como no caso de doenças como a Sida ou o Ébola. As descobertas científicas são importantes mas as suas aplicações tanto a nível de questões éticas como a nível de acessibilidade são essenciais, penso que são vertentes que fazem parte de um todo quando falamos da investigação científica em geral.

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