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Dulce Alfaiate (Medicina)

  •  December 18, 2015   — December 18, 2015
  • 12:00 am — 12:00 am

O que fazem os investigadores? Qual o seu papel na sociedade? Quais as descobertas mais importantes realizadas até ao momento e o que falta ainda descobrir? Estas são algumas das questões que tentaremos responder através de entrevistas a diferentes membros da AGRAFr, que fazem investigação em diversas áreas do saber, desde as ciências da vida às ciências sociais e humanas.

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Nome: Dulce Alfaiate
Cidade (Portugal): Évora
Cidade (França): Lyon
Formação Académica: Médica Infecciologista, Doutorada em Virologia
Ocupação Atual: Investigadora pós-doutoral
Relação com a AGRAFr: Membro desde 2015

 

1- Podes explicar, para um público não especializado, em que consiste o teu projeto de investigação?

Tenho vindo a trabalhar sobre hepatites víricas crónicas. Este grupo engloba várias formas de infecções do fígado causadas por diferentes vírus (hepatite B e C são as mais importantes), que progridem ao longo de meses a anos e que estão associadas com o desenvolvimento de complicações graves, como cirrose e cancro.Interessou-me particularmente a hepatite B, não só porque o número de pessoas infectadas a nível mundial é muito importante (estimado em 220 milhões), mas sobretudo porque actualmente não existe uma cura disponível. Tenho vindo a trabalhar sobre um subgrupo de doentes com hepatite B, que estão infectados também por um outro vírus, chamado vírus da hepatite delta. Esta doença, embora menos frequente (afecta cerca de 20 milhões de pessoas em todo mundo, o que não é negligenciável, sobretudo se tivermos em conta que o VIH, que atrai muito mais atenção, afecta cerca de 35 milhões), é mais grave, menos conhecida e estudada e não tem tratamento eficaz. Tenho trabalhado sobre os mecanismos através dos quais este vírus (que é o mais simples de todos os vírus que infectam o Homem) infecta as células do fígado e mais recentemente tenho estado a avaliar novas estratégias terapêuticas para o seu controlo.

2- Como é o teu dia a dia e o que te motiva no teu trabalho?

Depois de trabalhar durante anos num hospital como clínica, a adaptação à investigação não foi necessariamente fácil e não posso evitar comparações entre os dois mundos. A vida hospitalar, estando associada a uma carga de trabalho intensa, solicitações constantes e uma responsabilidade enorme, habitua-nos a ver diariamente resultados desse esforço, seja porque o doente a quem demos um antibiótico, dois dias depois já não tem febre ou porque recebemos um sorriso de reconhecimento. No laboratório as solicitações são menos frequentes e a noção de ‘urgência’ é diferente. No entanto a carga de trabalho é igualmente pesada e não se traduz em resultados imediatos. Qualquer pequeno resultado, cujo impacto nem sempre é evidente a curto prazo, envolve muitas horas de trabalho, persistência e luta contra a frustração. De onde vem a motivação? Trabalhar em investigação permite-nos ser creativos, pensar além do que é conhecido, discutir de forma aberta e desinteressada, ousar perguntar e desenvolver formas novas de encontrar respostas. A perspectiva de contribuir para o conhecimento global, ainda que de forma ínfima, é para mim, muito estimulante, ainda mais se essa contribuição puder traduzir-se numa aplicação prática com impacto no tratamento dos doentes.

3- Na tua opinião, qual o papel do investigador na sociedade?

O investigador é em grande medida um reflexo da sociedade em que está inserido, mas deve ele mesmo ser um objecto de modelação dessa sociedade. Por um lado, o apoio que uma sociedade confere à investigação pode ser visto como uma medida do seu sucesso. Por outro lado, o investigador funda o seu trabalho em valores que vão para além dos princípios científicos e que podem inspirar outros campos da sociedade. Um investigador deve ser íntegro, honesto e estar de boa fé na obtenção e transmissão dos seus resultados. Deve conduzir o seu trabalho independentemente de crenças pessoais ou sociais. Deve estar aberto a criticas e opiniões fundamentadas e ser capaz de avaliar objectivamente o trabalho dos seus pares. O investigador deve, por princípio, ser generoso na partilha dos seu conhecimento, não só com os seus pares, mas também na educação de estudantes, decisores e da sociedade em geral. Assim sendo, o investigador tem um papel preponderante e uma responsabilidade de transmissão de conhecimento relevante à evolução da sociedade em que se insere.

4– Na tua opinião, qual a descoberta científica mais importante para a humanidade feita até ao momento e porquê?

A definição da importância de uma descoberta científca é difícil e depende naturalmente dos olhos do observador. No meu caso particular vou escolher uma descoberta com implicações práticas no meu dia a dia e com um impacto que me parece inigualável na qualidade e esperança de vida da população mundial. Falo da descoberta da penicilina em 1928 por Alexander Flemming. Esta descoberta marcou o início da chamada época antibiótica em que ainda vivemos. A utilização de antibióticos está neste momento tão enraizada na nossa sociedade, que a sua real relevância nos passa frequentemente desapercebida. Para perceber o seu impacto desta descoberta basta imaginar um mundo em que se morria de uma ferida infectada em alguns dias ou em que uma simples amigdalite se transformava numa doença cardíaca para toda a vida.  O impacto da introdução dos antibióticos foi tal que se traduziu num aumento da esperança média de vida de mais de 30 anos em menos de um século e foi sem dúvida uma das maiores conquistas da Medicina. Infelizmente, o uso de antibióticos tornou-te tão acessível que a sua eficácia começa a estar comprometida e voltamos a um tempo em que deixa de haver alternativas para tratar alguns tipos de infecções que vão voltar a ser fatais. A perspectiva de uma era pós-antibiótica é real e já existem actualmente bactérias que são resistentes a todos os tratamentos que actualmente temos disponíveis. A possibilidade de não ter meios eficazes de tratar infecções que actualmente consideramos simples é assustadora e coloca em perspectiva a real importância da conquista inequívoca que foi o desenvolvimento da terapêutica antibiótica.

5- Qual a questão científica que gostarias de ver respondida nos próximos anos e porquê?

Seria tentador focar-me sobre as grandes questões que se colocam actualmente em medicina, nomeadamente no que se refere ao conhecimento limitado que continuamos a ter sobre os mecanismos do envelhecimento ou do aparecimento de células cancerosas. Ainda assim, e arriscando-me a entrar em áreas do conhecimento que não domino, parece-me que as perguntas mais determinantes para o futuro próximo da humanidade advêm das neurociências e das ciências comportamentais. Apesar de termos conseguido conquistas inequívocas na compreensão do funcionamento do corpo humano, que se traduziram num prolongamento da esperança média de vida e na melhoria da sua qualidade, o conhecimento dos determinantes do comportamento humano continua a ser limitado. Uma abordagem neurobiológica dos comportamentos individuais e em resposta a estímulos ambientais e sociais, dos quais são exemplos a agressividade ou a frustração, poderá levar a uma melhor compreensão das relações interindividuais e em última análise dospadrões de organização social actualmente existentes e à sua adaptação, tendo por objectivo a sustentabilidade a longo prazo.

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