27 April

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Catarina de Sousa (Psicologia do Desporto)


  •  April 27, 2015   — April 27, 2015
  • 12:00 am — 12:00 am

O que fazem os investigadores? Qual o seu papel na sociedade? Quais as descobertas mais importantes realizadas até ao momento e o que falta ainda descobrir? Estas são algumas das questões que tentaremos responder através de entrevistas a diferentes membros da AGRAFr, que fazem investigação em diversas áreas do saber, desde as ciências da vida às ciências sociais e humanas.

catarinaSousa

Nome: Catarina de Sousa
Cidade (Portugal): Lisboa
Cidade (França): Grenoble
Formação Académica: Doutoramento em Psicologia do Desporto
Ocupação Atual: Psicóloga e investigadora em Psicologia do Desporto
Relação com a AGRAFr: Membro desde 2014

1- Podes explicar, para um público não especializado, em que consiste o teu projeto de investigação?

Neste momento trabalho em dois grandes projetos de investigação na área da psicologia do desporto. Um dos projetos destina-se a analisar os fatores que levam os atletas a continuar a prática desportiva, a um nível competitivo ao longo do tempo. Ou seja, trabalhamos para identificar as razões do compromisso desportivo, para que depois possam ser trabalhadas por clubes e treinadores, por forma a favorecer a continuidade desportiva dos seus atletas. O outro projeto destina-se a desenvolver e aplicar um programa de intervenção individualizado para promover alterações positivas na forma como os treinadores interagem com os seus atletas e reagem ao rendimento da equipa. Sabemos que existem determinados comportamentos do treinador que favorecem a motivação intrínseca, a melhoria contínua, a relação entre os companheiros de equipa, o aumento da autoestima e a redução da ansiedade dos atletas. Este programa adapta-se às características de cada treinador e de cada desporto e promove o aumento dos comportamentos benéficos do treinador, em detrimento dos prejudiciais para a equipa e atletas. Um dos principais objetivos é que os progressos feitos pelo treinador, através deste programa, se possam manter ao longo da época desportiva, assim como da sua carreira como treinador.

2- Como é o teu dia a dia e o que te motiva no teu trabalho?

O meu dia-a-dia é bastante diversificado e é exatamente esta diversidade uma das principais razões  da minha motivação. Além disso, o facto de poder investigar e aplicar a informação obtida da investigação em casos concretos, nomeadamente com atletas e treinadores, é outra das minhas motivações. O quotidiano divide-se entre diferentes áreas da psicologia: investigadora, realizando a análise de resultados, redação de artigos científicos, orientação de teses de doutoramento, etc.; psicóloga desportiva, dando apoio a atletas de competição para que cheguem  ao seu nível máximo, apoio a treinadores na liderança das suas equipas para alcançarem os seus objetivos, apoio a clubes a definir os seus valores desportivos; e formadora a nível comportamental para empresas em temas como comunicação, gestão de equipas e objetivos, etc. Uma das minhas áreas profissionais mais recentes prende-se com o acompanhamento psicossocial de pessoas e famílias em fase de transição, que vivem ou têm intenção de viver fora do seu país de origem.

3- Na tua opinião, qual o papel do investigador na sociedade?

Do meu ponto de vista, o investigador tem um papel fundamental em divulgar os seus resultados à comunidade específica a quem se destinam os mesmos. Mais que papel diria que tem a função de divulgar os resultados e conclusões numa linguagem comum e próxima aos cidadãos em geral. Além do papel de divulgação pode e deve providenciar medidas de aplicação dos seus resultados. No fundo, julgo que tem também o papel de transmissor de saber entre a comunidade científica da sua área de conhecimento e a sociedade. Deve sempre procurar fazer a ponte do seu trabalho para a sociedade em geral e questionar-se qual a utilidade dos seus resultados para a vida fora do laboratório e da universidade. Este papel representa uma das mais-valias do investigador. Contudo, a azáfama dos projetos de investigação, a rotina da docência, a necessidade de publicar cientificamente os resultados obtidos, pode levar-nos a atribuir menos importância à comunicação e criação de formas de aplicação dos resultados na sociedade. Reitero que esta questão não deve ser esquecida e deve fazer parte dos objetivos de cada investigador: “Como poderei traduzir e aplicar resultados obtidos da minha investigação em determinada população em concreto para seu benefício?”

4- Na tua opinião, qual a descoberta científica mais importante para a humanidade feita até ao momento e porquê?

Uma das descobertas científicas que considero mais importantes foi a descoberta feita por James Watson e Francis Crick em 1953 da estrutura de dupla hélice do ADN. Esta é uma estrutura que contém mensagens codificadas, como os nossos genes. Os genes determinam características do funcionamento do nosso organismo, de aparência e inclusive características comportamentais. Esta descoberta veio permitir determinar a origem de determinadas doenças, como por exemplo o Síndrome de Down, assim como permite trabalhar na prevenção de doenças com componente genética, como seja o cancro.

Uma outra descoberta científica que gostaria de referir é o facto de que a prática regular de atividade física tem efeitos benéficos na saúde física e psicológica. Hoje em dia sabe-se que quando realizamos exercício físico o nosso corpo liberta endorfinas que promovem sentimentos de felicidade e bem-estar, pelo que auxilia, por exemplo, o tratamento de estados depressivos. Está provado que a prática de exercício físico regular previne doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, depressão e osteoporose. Esta informação é de grande utilidade para o aumento da longevidade e prevenção de algumas doenças que fazem parte das principais causas de morte atualmente.

5- Qual a questão científica que gostarias de ver respondida nos próximos anos e porquê?

Gostaria de ver respondidas algumas questões que considero importantes e também intrigantes.

A nível alimentar tem-se verificado o aumento do número de pessoas que apresentam intolerâncias e/ou alergias a determinados alimentos. As causas são diversas, como o stress , os componentes químicos presentes em alguns alimentos ou a genética. A minha questão é se este aumento de intolerâncias e alergias poderá ser uma característica de todos os humanos no futuro, caso o tipo de alimentação e hábitos se mantenham. Penso que deve ser uma questão a ponderar uma vez que a “exceção” de pessoas alérgicas ou intolerantes aumenta diariamente . Será que esta exceção poderá ser a regra em gerações futuras? Em relação a este tema, qual será a relação entre o rendimento profissional, tipo de relações sociais associadas ao tipo de alimentação e restrições devido a intolerâncias alimentares? Uma vez que a alimentação na sociedade representa não só uma fonte de energia para o nosso organismo mas também um ícone cultural e um ritual social, será que as intolerâncias e alergias podem alterar a nossa forma atual de conceito de alimentação? Em que medida poderão ser alteradas as recomendações médicas ao nível alimentar?

A outra questão mais abrangente que gostaria de ver respondida é se existirá vida inteligente fora da Terra. A descoberta de outras formas de vida inteligente poderia revolucionar e alterar o nosso atual conceito de vida. O fato de colocarmos esta questão permite-nos também pensar além do nosso quotidiano. Carl Sagan, no seu livro Contato refere que, “se não existe vida fora da terra, então o universo é um grande desperdício de espaço”

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