15 Oct

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Ana Costa (Ciências Biomédicas)

  •  October 15, 2015   — October 15, 2015
  • 12:00 am — 12:00 am

O que fazem os investigadores? Qual o seu papel na sociedade? Quais as descobertas mais importantes realizadas até ao momento e o que falta ainda descobrir? Estas são algumas das questões que tentaremos responder através de entrevistas a diferentes membros da AGRAFr, que fazem investigação em diversas áreas do saber, desde as ciências da vida às ciências sociais e humanas.

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Nome: Ana Costa
Cidade (Portugal): Alcochete
Cidade (França): Paris
Formação Académica: Doutorada
Ocupação Atual: Investigadora
Relação com a AGRAFr: membro desde 2015

 

1- Podes explicar, para um público não especializado, em que consiste o teu projeto de investigação?

O meu projeto de investigação explora o microambiente tumoral no cancro da mama de modo a descobrir novas terapias. No cancro em geral, assim como no cancro da mama, não só as células tumorais contribuem para a progressão tumoral, mas também células que rodeiam o tumor, como os fibroblastos ou as células imunitárias.

Sabemos também que alguns tipos de cancro da mama mais agressivos nem sempre respondem às terapias aplicadas. Ao estudar o microambiente tumoral, pretendemos perceber o porquê e deste modo tentamos encontrar terapias mais eficazes para estes doentes.

2- Como é o teu dia a dia e o que te motiva no teu trabalho?

Os meus dias são normalmente muito intensos. Muitas experiências em curso, discussões científicas, reuniões, apresentações… O trabalho de investigador é estimulante e rotina não consta no meu dia a dia! No meu caso motiva-me a busca incessante de respostas, desvendar o até então desconhecido e desafiar o que se considera conhecido. Por vezes as perguntas são simples: porque é que uns doentes que aparentemente partilham do mesmo tipo de cancro da mama respondem de maneira diferente? Talvez não sejam assim tão semelhantes… então quais são as diferenças? Trabalho para perceber as diferenças e pretendo ir mais além: usar essa informação para criar terapias adequadas a estes doentes. É evidente que tudo isto não é simples, por vezes estamos mesmo no desconhecido e algumas hipóteses que testamos não são válidas… Apesar de estimulante, também temos dias frustrantes! É preciso ser persistente e possuir uma grande capacidade de trabalho e isso só se consegue sendo apaixonado pelo que se faz! No meu caso move-me o sonho de melhorar a vida dos doentes de cancro. Faço o que faço a pensar nas pessoas. Ter feito investigação no IPO de Lisboa aproximou-me dos doentes e penso que isso foi importante para me lembrar e acreditar que o que faço é para melhorar a vida destes doentes.

3- Na tua opinião, qual o papel do investigador na sociedade?

As sociedades não se desenvolvem sem o pilar do conhecimento. Os investigadores produzem conhecimento. E por isso são essenciais para o crescimento saudável e equilibrado da sociedade. O papel dos investigadores é essencial, basta olhar à nossa volta…  as tecnologias que temos hoje disponíveis, quer na área da engenharia, agricultura, medicina são graças aos esforços de investigadores! No caso concreto da medicina, a esperança de vida é bem maior atualmente devido às descobertas científicas. Claro que também tenho que salientar que as descobertas científicas que se fazem têm que ser conhecidas. Cabe ao investigador e à sociedade o papel da divulgação científica. Não adianta descobrir algo se não se partilhar! A ligação entre a investigação que produz o conhecimento e as empresas que o aplicam é essencial. Em Portugal, o mundo empresarial, ainda que pequeno está ainda muito afastado dos investigadores. A divulgação científica é extremamente importante e temos que melhorar nessa área. Fico contente quando já vemos noticiados alguns trabalhos na comunicação social… é um caminho, mas há muito mais a percorrer. No geral, infelizmente, penso que o papel do investigador está ainda muito afastado dos cidadãos e congratulo a AGRAF com a divulgação que tem feito dos nossos investigadores.

4- Na tua opinião, qual a descoberta científica mais importante para a humanidade feita até ao momento e porquê?

A descoberta…. é difícil dizer… tenho que referir… as descobertas!

Penso que a descoberta da penicilina por Fleming no início do século XX revolucionou o mundo da medicina. Os antibióticos permitiram já salvar muitas vidas. Fleming reparou que em placas que continham uma bactéria patogénica, o Staphillococus aureus, crescia um fungo que aniquilava essas bactérias. Este fungo pertence ao género Penicillium e produz a penicilina. Gostava de utilizar esta descoberta para lembrar que muitos dos medicamentos que temos hoje têm origem nas plantas e fungos. Este facto é muitas vezes esquecido pelos investigadores da área da medicina e acredito que se o mundo da medicina e do reino vegetal/microbiologia colaborassem, todos teriam a ganhar! Outro exemplo é a aspirina, inicialmente descoberta na casca do salgueiro; o taxol, atualmente usado no tratamento do cancro e inicialmente descoberto na casca do teixo… mas há muitos mais exemplos.

Outra descoberta marcante foi a radioactividade no inicio do século XX por Marie e Pierre Curie, termo criado por eles quando isolaram o elemento químico rádio e o polónio. O seu potencial é enorme! Mas, na minha opinião, tudo o que é fantástico, tem duas faces e tudo depende do uso que ser der! Pode ser muito bom ou muito mau. Bem usada, a radioactividade é uma fonte de energia incrível. Infelizmente, neste nosso mundo desequilibrado, também já tivemos oportunidade de ver o seu potencial negativo com as bombas de Nagasaki e Hiroshima: uma catástrofe.

Não posso deixar de referir a clássica descoberta da estrutura do DNA nos anos 50, por Rosalind Franklin(muitas vezes injustamente esquecida, naquele tempo não era fácil ser mulher investigadora) e por Watson e Crick. Permitiu compreender o mundo da genética e a partir daí o conhecimento científico avançou exponencialmente.

Penso também que a nível espacial avançamos muito. A tecnologia que permitiu a construção de foguetões que nos permitissem explorar o universo foi muito importante. Claro que ainda agora começamos a explorar, mas vêm-se os avanços… Todos os dias temos acesso a notícias de imagens fantásticas de outros planetas distantes… que espero que nos permitam compreender mais do universo. Neste mundo da física, o Einstein não pode ser esquecido… ainda recentemente, uma das suas teorias acerca da curvatura espaço-tempo parece ter sido confirmada por um grupo espanhol que conseguiu reproduzir um “whormwhole” em laboratório. Os filmes de ficção científica estão cada vez mais próximos! Qualquer dia ainda podemos viajar no tempo!

5- Qual a questão científica que gostarias de ver respondida nos próximos anos e porquê?

Idealmente gostava que as pessoas parassem de morrer por doença…. objectivamente, e naturalmente focando-me na minha área, gostava que se percebessem quais os mecanismos que dão origem ao(s) cancro(s) e que se conseguissem descobrir e aplicar terapias eficazes. Embora alguns tipos de cancro já sejam curáveis, infelizmente há muitos outros cuja terapia não é eficaz. Há tipos de cancros muito agressivos como pâncreas, pulmão, mama, leucemias…  Muitas crianças são afectadas por cancros hematológicos… Gostava que se parasse de morrer de cancro.

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