24 March

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Ana Antunes (Biologia)


  •  March 24, 2015   — March 24, 2015
  • 12:00 am — 12:00 am

O que fazem os investigadores? Qual o seu papel na sociedade? Quais as descobertas mais importantes realizadas até ao momento e o que falta ainda descobrir? Estas são algumas das questões que tentaremos responder através de entrevistas a diferentes membros da AGRAFr, que fazem investigação em diversas áreas do saber, desde as ciências da vida às ciências sociais e humanas.

Ana Antunes

Nome: Ana Antunes
Cidade (Portugal): Lisboa – Sintra
Cidade (França): Lyon
Formação Académica: Doutoramento
Ocupação Atual: Investigadora em Microbiologia
Relação com a AGRAFr: Fundadora/Vice-Presidente

1- Podes explicar, para um público não especializado, em que consiste o teu projeto de investigação? 

O meu trabalho de investigação fundamental centraliza-se numa bactéria denominada Neisseria meningitidisque coloniza exclusivamente o Homem, podendo causar doenças como a meningite. Apesar de existirem alguns tratamentos e meios de prevenção ainda não se percebe completamente o como e o porquê de algumas estirpes desta bactéria provocarem doenças no Homem. Tentar compreender o comportamento e as estratégias desenvolvidas pela bactéria para se propagar e multiplicar nos humanos é uma etapa essencial para o desenvolvimento de terapias e meios de prevenção contra as doenças provocadas pela mesma. Uma das etapas fulcrais do ciclo de vida de uma bactéria é a aquisição de nutrientes. As bactérias precisam de se alimentar para viverem e multiplicarem-se no seu hospedeiro. Eu tento perceber e caracterizar uma das proteínas da Neisseria meningitidis. Inicialmente descrita como estando envolvida na obtenção de nutrientes relevantes para o desenvolvimento da bactéria, apercebemo-nos que esta proteína tem uma função mais importante na resistência da bactéria contra certos mecanismos de defesa do Homem, que atuam na prevenção e eliminação de organismos estranhos. Compreender a função desta proteína permite contribuir para melhor perceber alguns dos mecanismos que esta bactéria utiliza para escapar às defesas do corpo humano.

 2- Como é o teu dia a dia e o que te motiva no teu trabalho?

O meu dia-a-dia é diferente todos os dias. O meu trabalho gira à volta de uma pergunta geral, a qual vou tentando responder fazendo perguntas mais específicas enquadradas na questão global. No meu dia-a-dia, tenho de planear, coordenar e realizar as experiências que permitam responder às tais pequenas questões, analisar e interpretar os resultados e ver como esses resultados se enquadram numa história que permite responder à questão geral. Se certas experiências não permitem responder às questões, tento alterar o protocolo, otimizá-lo ou pensar em novas maneiras de abordar o problema, por exemplo lendo artigos publicados por outros colegas que poderão trazer nova informação, técnicas novas ou trocando ideias com outros colegas cientistas. Existem várias aspetos que me motivam no meu trabalho como a curiosidade, a vontade de compreender como funciona ou o impacto que o meu trabalho pode vir a ter no bem-estar das pessoas. Não deixa de ser extraordinário que organismos tão pequenos (microrganismos) consigam ter um impacto tão grande nas nossas vidas, como deixar-nos doentes, podendo mesmo ter um impacto económico consequente na sociedade.

3- Na tua opinião, qual o papel do investigador na sociedade?

O investigador tem como papel principal a procura de respostas a questões de impacto para a sociedade. O conhecimento e as questões são infinitas e por isso cada investigador especializa-se numa área, e dentro dessa área numa temática, e dentro desse tema numa questão geral, que vai tentando decompor em questões mais pequenas. Assim, dentro da sociedade, o investigador contribui para o avanço do conhecimento que depois pode ser usado e aplicado ao serviço da sociedade.

4- Na tua opinião, qual a descoberta científica mais importante para a humanidade feita até ao momento e porquê?

É uma pergunta difícil de responder, pois as descobertas e o conhecimento que se adquirem são dinâmicos. A resposta a uma pergunta leva a uma nova questão e a uma nova resposta e assim sucessivamente, é um processo dinâmico, em constante movimento, e em que cada descoberta científica tem implicações importantes nas próximas descobertas. Por exemplo para descobrir que existem genes dentro de uma célula, foi preciso identificar primeiro a célula.

Em vez de falar de uma descoberta específica, mencionaria antes como é impressionante o desenvolvimento quase “de mãos dadas” entre o conhecimento científico e a tecnologia. Existem descobertas que só puderam ser feitas devido ao aparecimento de novas tecnologias, como por exemplo a teoria do Bosão de Higgs predito em 1964 pelo físico Peter Higgs, prémio Nobel da Física 2013, que só foi possível confirmar recentemente através do Grande Colisor de Hádrons (LHC), presente na Organização Europeia para a Pesquisa  Nuclear (CERN). Por outro lado, o conhecimento impulsiona o desenvolvimento tecnológico. O primeiro antibiótico moderno, a penicilina, descoberto por Alexander Fleming em 1928 (Prémio Nobel em Fisiologia ou Medicina, 1945) surgiu da necessidade de tratar ferimentos infectados, especialmente após a 1ºGuerra Mundial. Hoje em dia a penicilina continua ser um dos antibióticos mais utilizados no tratamento contra infeções bacterianas. É surpreendente o impacto que a  descoberta dos antibióticos tem na vida das pessoas, contribuindo para a saúde e bem estar das mesmas. Quem nunca tomou antibióticos num dado momento da sua vida?

 5- Qual a questão científica que gostarias de ver respondida nos próximos anos e porquê?

Algo que considero fascinante é o fato de cada pessoa “coabitar” com cerca de 100 triliões de microrganismos que residem no nosso corpo (microbiota), principalmente bactérias, número este que é 10 vezes superior à quantidade de células do próprio corpo humano. Muitos dos microrganismos da microbiota humana ajudam por exemplo na digestão de certos alimentos, para extrair nutrientes essenciais ou na sintese de vitaminas fundamentais que o nosso corpo não é capaz de produzir,  contribuindo no seu todo, para a ativação do sistema imunitário, um dos sistemas de defesa principais do nosso organismo. No entanto, também existem certos microrganismos que podem causar doenças quando as defesas do corpo humano são comprometidas.

A composição da microbiota varia em função de vários fatores, como a idade, estímulos hormonais, hábitos alimentares e condições ambientais. Para além disso, existe uma grande diversidade de espécies de microrganismos que habitam diferentes partes do nosso corpo. Por exemplo, o que leva certos microrganismos habitarem exclusivamente a pele, e outros a cavidade oral ? Que tipo de especializações desenvolveram para se adaptarem aos locais onde residem? Como se distribui a microbiota nos diferentes locais do corpo? Porque é que existem certas bactérias que contribuem para a nossa saúde e outras provocam doenças? O que as diferencia? Saber o que constitui a microbiota de uma pessoa sã tem implicações importantes na saúde das pessoas, pois a falta ou a alteração dessa microbiota pode levar a distúrbios de saúde.

Compreender o funcionamento da microbiota presente no corpo humano, permite-nos dar-lhe a atenção adequada para a sua manutenção e equilíbrio, contribuindo desta forma para o nosso próprio bem- estar.

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